evidências clínicas

Calculadora — medidas de efeito

Toda intervenção clínica produz uma tabela 2×2 que cruza dois eixos: o grupo (intervenção vs. controle) e o desfecho (ocorreu vs. não ocorreu). Dessa tabela saem todas as medidas que quantificam o efeito do tratamento — risco absoluto, risco relativo, OR, RAR, RRR, NNT, NNH e seus intervalos de confiança.

Esta calculadora faz o cálculo automaticamente. Insira os números do estudo e obtenha as medidas em tempo real, com interpretação ao lado. Para o aprofundamento conceitual, veja medidas de efeito.

A calculadora

Calculadora interativa

Explore os cenários dos estudos ou insira valores nas quatro células da tabela 2×2 e veja o que acontece com os resultados (RR, RAR, NNT, NNH).

Insira seus dados

Tabela 2×2 do estudo:

Desfecho ocorreu Não ocorreu
Intervenção
Controle
RA intervenção 5,0%
RA controle 10,0%
Risco relativo (RR) 0,50 IC 95%: 0,32 – 0,79
Odds ratio (OR) 0,47 IC 95%: 0,29 – 0,77
Redução absoluta de risco (RAR) 5,0 pp IC 95%: 1,7 – 8,3 pp
Redução relativa de risco (RRR) 50,0% Cuidado: RRR sozinha esconde magnitude absoluta
NNT 20 IC 95%: 12 – 59 Tratar 20 pacientes para evitar 1 desfecho

A intervenção reduz o risco em 50% relativos (RR 0,50), com diferença absoluta de 5 pontos percentuais. O NNT de 20 indica efeito clinicamente significativo. O IC95% do RR não cruza 1, então o resultado é estatisticamente significativo.

Como ler os resultados

A calculadora aceita quatro entradas — as quatro células da tabela 2×2 — e devolve oito medidas de efeito principais, cada uma com intervalo de confiança 95%.

Medidas absolutas (mostram a magnitude real):

  • RA grupo intervenção — quantos % desenvolveram o desfecho recebendo o tratamento
  • RA grupo controle — quantos % desenvolveram o desfecho sem o tratamento
  • RAR (redução absoluta de risco) — diferença entre os dois RA, em pontos percentuais

Medidas relativas (comparam os grupos):

  • RR (risco relativo) — razão entre os dois RA. RR = 1 sem efeito; < 1 protege; > 1 causa dano
  • OR (odds ratio) — razão entre as chances. Necessária em estudos caso-controle. ≈ RR quando o desfecho é raro
  • RRR (redução relativa de risco) — proporção do risco-base que o tratamento eliminou

Medidas de "tradução clínica" (úteis para conversa com paciente):

  • NNT (número necessário a tratar) — pacientes a tratar para evitar 1 desfecho. NNT = 1/RAR
  • NNH (número necessário causar dano) — pacientes a tratar para 1 efeito adverso. Mesmo cálculo, com AAR de dano

Em todos os campos, o IC95% mostra a faixa de incerteza em torno da estimativa pontual. Se o IC95% do RR cruza 1, o efeito não é estatisticamente significativo a 95% de confiança — a calculadora destaca isso, e o NNT/NNH passa a "não calculável" (não exibe número que sugeriria certeza falsa).

Cinco coisas para experimentar

Algumas perguntas que a calculadora responde em segundos:

1. A meta-análise da aspirina em prevenção primária.
Use o cenário pré-carregado "Aspirina (ASPREE)". O IC do RR cruza 1 — efeito não-significativo. NNT e NNH aparecem como "não calculável", forçando atenção ao fato de que o dano absoluto é maior que o benefício absoluto. É o caso da Dra. Amélia, citado nas páginas dos 5As.

2. O DAPA-HF — quando o efeito é grande.
Cenário "Dapagliflozina (DAPA-HF)". RR ≈ 0,74 com IC95% bem estreito; NNT em torno de 16 com IC também estreito. Compare com o cenário ASPREE para ver como NNT diferencia tratamentos com efeitos clinicamente robustos vs. modestos.

3. O efeito do desfecho raro sobre OR vs. RR.
Reduza progressivamente o número de eventos no controle, mantendo proporções. Veja como OR e RR ficam praticamente idênticos quando os eventos são raros (< 10%) e como OR superestima o efeito quando os eventos ficam comuns. Isso é importante ao ler estudos com desfechos frequentes.

4. Como o IC95% se estreita com o tamanho amostral.
Use o mesmo RR estimado e dobre todos os números da tabela. Veja como o IC95% se estreita — o efeito estimado não muda, mas a confiança nele aumenta. Esse é o trabalho do erro aleatório (que reduz com mais sujeitos), distinto do trabalho do viés (que não muda com tamanho).

5. Quando a redução relativa engana.
Construa dois cenários com a mesma RRR de 50%, mas em risco-base muito diferente:

  • A: 40% controle, 20% intervenção → RRR 50%, RAR 20 pp, NNT 5
  • B: 1% controle, 0,5% intervenção → RRR 50%, RAR 0,5 pp, NNT 200

A "redução de 50%" é idêntica nos dois. Os significados clínicos não são. Esta é a razão de sempre olhar RAR e NNT, não só RR/RRR.

Conceitos relacionados

Referências

  1. Altman DG, Bland JM. Confidence intervals for the number needed to treat. BMJ 1998;317(7168):1309–12.
  2. Greenhalgh T. How to Read a Paper: The Basics of Evidence-Based Medicine and Healthcare. 6ª ed. Hoboken: Wiley-Blackwell; 2019.
  3. Straus SE, Glasziou P, Richardson WS, Haynes RB. Evidence-Based Medicine: How to Practice and Teach EBM. 5ª ed. Edinburgh: Elsevier; 2018. Capítulo 5: Therapy.