Medidas de frequência — prevalência e incidência
Quando dizemos que "10% da população tem diabetes", é prevalência. Quando dizemos que "5 em 1000 pessoas desenvolvem diabetes a cada ano", é incidência. São coisas diferentes, descrevem situações distintas, e confundi-las leva a decisões clínicas erradas — desde alocação de recursos até interpretação de risco para um paciente específico.
Esta página explica ambas e mostra por que cada uma importa.
Prevalência — a fotografia
Prevalência é a proporção de indivíduos numa população que apresentam uma determinada condição num dado momento ou período. É essencialmente uma fotografia da carga de doença atual.
Prevalência = casos existentes / população total Exemplos:
- Em 2025, aproximadamente 10% dos brasileiros adultos vivem com diabetes. Esta é a prevalência pontual (numa dada data).
- Numa unidade de saúde com 3000 adultos cadastrados, 600 têm hipertensão diagnosticada. A prevalência de hipertensão nesta população é 600/3000 = 20%.
- Numa turma de 100 estudantes, 10 estão gripados hoje. A prevalência de gripe na turma hoje é 10%.
A prevalência é útil para planejamento de recursos: quantos pacientes precisam de acompanhamento? quantas consultas por mês? quantas medicações em estoque? Ela responde "quão comum é a doença agora".
Incidência — o filme
Incidência é a taxa ou proporção de novos casos que se desenvolvem numa população suscetível durante um determinado período. Mede o risco ou velocidade de surgimento da condição.
Incidência = novos casos no período / população em risco no início do período Exemplos:
- Numa cidade, em um ano, ocorrem 50 novos casos de dengue por 1000 habitantes. A incidência anual de dengue é 50/1000 = 5%.
- Na unidade de saúde com 2400 adultos não hipertensos, surgem 50 novos casos de hipertensão num ano. A incidência anual é 50/2400 = ~2%.
- Na turma de 100 estudantes, ao longo de uma semana, 5 estudantes saudáveis adoecem. A incidência semanal é 5/100 = 5% por semana.
A incidência é útil para estudos de causa de doença e avaliação de impacto de intervenções preventivas. Ela responde "qual o risco de novos casos surgirem"? É a medida que muda quando uma vacina funciona, quando uma campanha de prevenção tem efeito, quando uma exposição é eliminada.
A diferença que muda tudo
Resumindo: prevalência reflete quantos já estão doentes (uma foto instantânea); incidência reflete quantos ficam doentes ao longo do tempo (uma filmagem). Elas se complementam, mas não são intercambiáveis.
| Prevalência | Incidência | |
|---|---|---|
| Pergunta que responde | Quão comum é? | Qual o risco de surgir? |
| Numerador | Casos existentes | Casos novos |
| Denominador | População total | População em risco |
| Tempo | Um momento ou período | Período definido |
| Útil para | Planejamento de recursos | Avaliar prevenção, identificar causas |
| Aumenta com | Mais incidência e maior duração da doença | Maior exposição ao fator de risco |
Um detalhe importante: uma doença crônica pode ter alta prevalência mesmo com baixa incidência, porque os casos se acumulam. O HIV em tratamento é exemplo: a incidência caiu drasticamente nas últimas duas décadas, mas a prevalência subiu — porque quem tem o vírus vive muito mais tempo. Sem a distinção, programas de saúde ficam confusos.
Um exemplo prático
Considere uma unidade de saúde no interior, com 3000 adultos cadastrados. Dr. José quer planejar o cuidado a hipertensos. Ele tem dois números:
- 600 adultos com hipertensão diagnosticada (prevalência atual de 20%)
- 50 novos casos de hipertensão por ano entre os 2400 adultos sem o diagnóstico (incidência anual de 2%)
A prevalência diz que ele precisa acompanhar 600 pessoas hoje — isso define quantas consultas, exames de rotina, prescrições continuadas. A incidência diz que ele precisa estar preparado para 50 novos diagnósticos por ano — isso define quanto tempo reservar para investigação inicial, quanto material educativo distribuir, quanta capacidade preventiva oferecer.
São decisões diferentes, baseadas em medidas diferentes. Confundir as duas leva a sub-planejar uma das frentes.
Onde elas aparecem na MBE
Em quase todas as etapas dos 5As, mas com papéis distintos:
- Em PICO: o componente "P" (paciente/população) frequentemente envolve descrição de prevalência ("idosos com hipertensão")
- Em estudos diagnósticos: a prevalência da doença muda o valor preditivo do teste — base de toda a calculadora de testes diagnósticos
- Em estudos terapêuticos: a incidência do desfecho nos grupos é o que se compara para calcular risco relativo, redução absoluta de risco, NNT
- Em estudos preventivos: o objetivo geralmente é reduzir a incidência de uma condição em uma população em risco
A próxima página, medidas de efeito, explica como combinar incidências em dois grupos para chegar a RR, RAR, NNT e NNH — as medidas que dizem se um tratamento funciona e o quanto.
Erros comuns
- "50 casos de gripe na escola hoje" — isso é prevalência ou incidência? Depende. Se você está dizendo "atualmente há 50 alunos gripados", é prevalência. Se está dizendo "esta semana 50 alunos adoeceram", é incidência. A frase precisa ser explícita.
- Incidência sem denominador-em-risco. Calcular incidência de hipertensão dividindo novos casos pela população total (incluindo quem já tem) infla o denominador e subestima o risco real. Tem que excluir quem já está doente.
- Prevalência sem período definido. "A prevalência de depressão é 8%" — em qualquer momento? em algum momento da vida? num ano? São números diferentes (prevalência pontual vs. prevalência ao longo da vida). Sem o período, o número não significa nada concreto.
- Comparar prevalência de cidade A com incidência de cidade B. Erro comum em discussões — descrevem fenômenos diferentes e não cabe comparar diretamente.
- Concluir causa por prevalência alta. Que uma condição seja prevalente num grupo não diz que o grupo causa a condição. Doenças crônicas têm prevalência alta em idosos não porque a idade cause; é porque o tempo de exposição e a duração da doença se acumulam.
Conceitos relacionados
- Medidas de efeito — como combinar incidências para calcular RR, RAR, NNT
- Testes diagnósticos — onde a prevalência muda o valor preditivo
- Desenhos de estudo — qual desenho mede prevalência (transversal) vs. incidência (coorte, ECR)
- Pirâmide de evidências — o lugar dos estudos de frequência
Referências
- Rothman KJ, Greenland S, Lash TL. Modern Epidemiology. 4ª ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2021. Capítulo 3.
- Porta M, ed. A Dictionary of Epidemiology. 6ª ed. Oxford: Oxford University Press; 2014. Verbetes "Incidence" e "Prevalence".
- International Diabetes Federation. IDF Diabetes Atlas, 10th ed. Brussels: IDF; 2021. Disponível em: diabetesatlas.org.