Os 5 As da Medicina Baseada em Evidências
Toda decisão clínica que se quer baseada em evidências percorre o mesmo caminho. Não é intuitivo nem rápido: é um ciclo deliberado, com cinco etapas, criado pelos pioneiros da MBE no fim dos anos 1980 para tornar prático aquilo que parecia teórico.
São os 5 As. Cada A é um verbo. Cada verbo é um passo. Juntos, formam um ciclo que começa com uma dúvida real do consultório e termina com uma decisão informada — e com um aprendizado que melhora a próxima decisão.
O ciclo
- Ask (Perguntar) — transformar a inquietação clínica em pergunta respondível
- Acquire (Buscar) — encontrar a melhor evidência disponível
- Appraise (Avaliar) — julgar a qualidade e a relevância dessa evidência
- Apply (Aplicar) — integrar a evidência ao paciente real
- Assess (Monitorar) — verificar o resultado e reavaliar o processo
Cada etapa tem técnicas próprias, ferramentas próprias e armadilhas próprias. As próximas cinco páginas exploram cada uma delas em detalhe.
Onde tudo começa
Antes mesmo do primeiro A existe a dúvida — vaga, mal formulada, vinda do meio do atendimento. É dela que tudo parte. Sem dúvida real, os 5 As são um exercício acadêmico. Com dúvida real, viram um instrumento clínico.
Comece pelas dúvidas clínicas comunsDe onde vêm os 5 As
Os 5 As nasceram na McMaster University, no Canadá, no fim dos anos 1980. O grupo formado por David Sackett, Gordon Guyatt, Brian Haynes e outros pesquisadores estava inquieto com uma constatação simples: o conhecimento gerado pela pesquisa clínica de qualidade demorava demais — ou nunca — chegar à prática médica cotidiana. Médicos continuavam prescrevendo com base na autoridade do especialista, na tradição da escola ou na experiência pessoal, mesmo quando havia evidências sólidas apontando em outra direção.
A proposta foi pragmática: criar uma sequência de ações que qualquer médico, em qualquer lugar, pudesse seguir para fundamentar decisões na melhor evidência disponível. Em 1991, Gordon Guyatt cunhou o termo Evidence-Based Medicine. Em 1996, David Sackett publicou no British Medical Journal o editorial fundador, definindo MBE como "o uso consciente, explícito e criterioso da melhor evidência atual na tomada de decisões sobre o cuidado de pacientes individuais"1.
Os 5 As são a operacionalização dessa definição.
Os cinco passos, em mais detalhe
1. Ask (Perguntar)
Toda dúvida clínica precisa virar pergunta antes de virar busca. E nem toda dúvida é uma pergunta respondível. Esta etapa ensina a afiar a dúvida usando dois acrônimos complementares — SMART e PICO — para chegar a uma pergunta clara, específica e útil para o paciente que está na sua frente.
→ Aprofunde-se em Ask (Perguntar)
2. Acquire (Buscar)
Com a pergunta pronta, é hora de procurar resposta. Não em qualquer lugar — nas fontes certas, do jeito certo. Esta etapa apresenta a pirâmide de evidências, as bases de dados que importam (Cochrane, PubMed, BMJ Best Practice, OMS) e as estratégias de busca que poupam horas.
→ Aprofunde-se em Acquire (Buscar)
3. Appraise (Avaliar)
Encontrar não basta. A evidência encontrada precisa passar por três crivos: é metodologicamente sólida? Tem importância clínica relevante? Aplica-se ao paciente que está na minha frente? Esta etapa apresenta as ferramentas formais de avaliação — CASP, GRADE, RoB, AMSTAR — e as medidas de efeito que separam achados estatisticamente significativos de achados clinicamente úteis.
→ Aprofunde-se em Appraise (Avaliar)
4. Apply (Aplicar)
Aqui a ciência encontra a pessoa. Aplicar uma evidência exige integrar três dimensões: o que a literatura mostra, a experiência clínica do profissional e os valores do paciente. É também onde a realidade do contexto local — o que está disponível, o que cabe no orçamento da família, o que faz sentido culturalmente — entra na conta. A tomada de decisão compartilhada é o instrumento central deste passo.
→ Aprofunde-se em Apply (Aplicar)
5. Assess (Monitorar)
O ciclo fecha-se com a avaliação do resultado e do processo. O paciente melhorou? A decisão foi acertada? A pergunta inicial estava bem formulada? A busca foi eficiente? A interpretação foi correta? Esta etapa transforma cada decisão clínica em fonte de aprendizado para a próxima — individualmente e em equipe.
→ Aprofunde-se em Assess (Monitorar)
Como percorrer este site
Você pode ler as cinco páginas em ordem, do primeiro ao quinto A, como um curso. Ou pode pular direto para a etapa que precisa hoje — qualquer página funciona como ponto de entrada. Em cada uma, links levam aos conceitos de fundo, às ferramentas e às calculadoras que ela utiliza.
Comece pelo primeiro A: Ask (Perguntar)Conceitos relacionados
- Dúvidas clínicas comuns — onde tudo começa
- Raciocínio clínico — o que a MBE complementa, não substitui
- Tomada de decisão compartilhada — instrumento central do quarto A
- Pirâmide de evidências — referência para o segundo A
Referências
- Sackett DL, Rosenberg WMC, Gray JAM, Haynes RB, Richardson WS. Evidence based medicine: what it is and what it isn't. BMJ 1996;312(7023):71–2. Disponível em: bmj.com/content/312/7023/71. ↩
- Straus SE, Glasziou P, Richardson WS, Haynes RB. Evidence-Based Medicine: How to Practice and Teach EBM. 5ª ed. Edinburgh: Elsevier; 2018.
- Guyatt G, Cairns J, Churchill D, et al. Evidence-Based Medicine: A New Approach to Teaching the Practice of Medicine. JAMA 1992;268(17):2420–5.