evidências clínicas

Medidas de efeito — RR, RAR, NNT e os números que importam

Quando um artigo diz que um tratamento "reduz em 50% o risco de infarto", o que isso significa para o seu paciente? Pode significar que de 100 pacientes tratados, 50 terão um infarto evitado. Pode significar que de 1000 pacientes tratados, 1 terá. Os dois cenários são compatíveis com "redução de 50%".

A diferença está nas medidas: a redução de 50% é um número relativo. Para saber o que muda na vida do paciente, é preciso o número absoluto. Esta página explica todas as medidas de efeito relevantes, como calculá-las e — mais importante — como interpretá-las.

A tabela 2×2 que sustenta tudo

Praticamente toda medida de efeito sai de uma tabela 2×2 que cruza dois eixos: o grupo (intervenção vs. controle) e o desfecho (ocorreu vs. não ocorreu).

Desfecho ocorreu Desfecho não ocorreu Total
Grupo intervenção a b a+b
Grupo controle c d c+d

A partir dessa tabela, calculam-se todas as outras medidas. Exemplo concreto: um ensaio com 1000 pacientes, 500 em cada grupo. No grupo intervenção, 25 desenvolveram o desfecho; no controle, 50.

Infarto Sem infarto Total
Tratamento 25 (a) 475 (b) 500
Placebo 50 (c) 450 (d) 500

Mantenha esses números em mente — são eles que serão usados nos cálculos a seguir.

Risco absoluto (RA)

Definição: probabilidade ou incidência de um evento ocorrer num determinado grupo. É a incidência do desfecho dentro do grupo.

RAintervenção = a / (a + b) RAcontrole = c / (c + d)

No exemplo: RA(tratamento) = 25/500 = 5%; RA(placebo) = 50/500 = 10%.

O risco absoluto fornece a magnitude real do desfecho naquele grupo específico. É o ponto de partida — sem ele, todas as outras medidas (relativas) ficam abstratas.

Risco relativo (RR) — também chamado razão de risco

Definição: razão entre os riscos absolutos dos dois grupos. Diz quantas vezes mais (ou menos) provável é o desfecho no grupo intervenção, comparativamente ao controle.

RR = RAintervenção / RAcontrole

No exemplo: RR = 5% / 10% = 0,5.

Como interpretar:

  • RR = 1 → risco igual nos dois grupos. Sem efeito.
  • RR < 1 → risco menor no grupo intervenção. Tratamento parece proteger.
  • RR > 1 → risco maior no grupo intervenção. Tratamento parece causar dano.
  • RR = 0,5 → risco no grupo tratado é metade do controle. "Redução relativa de 50%".
  • RR = 2,0 → risco no grupo tratado é o dobro do controle. "Aumento relativo de 100%".

O RR é a medida mais reportada em ensaios clínicos porque tem propriedades estatísticas convenientes. Mas isolado, ele engana — porque um RR de 0,5 com risco-base de 1% (RA 0,5%) é clinicamente trivial, enquanto o mesmo RR de 0,5 com risco-base de 40% (RA 20%) é dramático.

Odds Ratio (OR) — razão de chances

Definição: razão entre as chances (não os riscos) do desfecho nos dois grupos. Chance é razão entre probabilidade de ocorrer e probabilidade de não ocorrer.

OR = (a/b) / (c/d) = (a × d) / (b × c)

No exemplo: OR = (25 × 450) / (475 × 50) = 11250/23750 = 0,47.

Como interpretar: semelhante ao RR — OR > 1 sugere associação positiva, OR < 1 sugere associação protetora, OR = 1 indica ausência de associação.

Quando usar OR vs. RR:

  • OR é obrigatório em estudos de caso-controle (não há como calcular incidência num desenho retrospectivo)
  • RR é preferível em ECRs e coortes (é mais intuitivo)
  • Quando o desfecho é raro (< 10%), OR ≈ RR. Se o desfecho é comum, OR superestima o RR.

Por isso ler "OR" sem checar a frequência do desfecho pode levar a interpretação inflada do efeito.

Redução absoluta de risco (RAR) — também chamada risk difference

Definição: diferença entre os riscos absolutos. Diz quantos pontos percentuais o tratamento subtraiu do risco do controle.

RAR = RAcontrole − RAintervenção

No exemplo: RAR = 10% − 5% = 5 pontos percentuais (ou 0,05 em proporção).

A RAR é fundamental para a clínica porque traz a magnitude na escala em que pessoas pensam. Dizer "evitamos 5 desfechos a cada 100 pacientes tratados" é compreensível. Dizer "reduzimos o risco em 50%" é abstrato.

Quando o tratamento causa dano em vez de proteger, a RAR fica negativa — ou se inverte e vira aumento absoluto de risco (AAR), com sinal positivo. Mesmo cálculo, interpretação oposta.

Redução relativa de risco (RRR)

Definição: proporção do risco-base que o tratamento eliminou. É a forma mais comum de reportar resultados em mídia leiga e — infelizmente — muitas vezes em manchetes científicas.

RRR = (RAcontrole − RAintervenção) / RAcontrole = 1 − RR

No exemplo: RRR = (10% − 5%) / 10% = 50%.

O problema da RRR é que ela é insensível à magnitude absoluta. Os cenários abaixo têm a mesma RRR (50%), mas significados clínicos radicalmente diferentes:

Cenário RA controle RA intervenção RRR RAR NNT
A — desfecho comum 40% 20% 50% 20 pp 5
B — desfecho raro 1% 0,5% 50% 0,5 pp 200
C — desfecho rarissimo 0,01% 0,005% 50% 0,005 pp 20.000

A RRR de 50% sozinha não distingue. RAR e NNT, sim.

NNT — Número necessário a tratar

Definição: número de pacientes que precisam ser tratados para evitar um desfecho. É o inverso da RAR.

NNT = 1 / RAR

No exemplo: NNT = 1 / 0,05 = 20. Tratam-se 20 pacientes para evitar 1 infarto.

NNT é, provavelmente, a medida mais útil para conversa com o paciente. Em vez de "redução de 50%" (relativa, abstrata), você diz "para cada 20 pacientes que tomam isso, 1 evita um infarto que aconteceria sem o tratamento".

Como interpretar NNT:

  • NNT baixo → tratamento eficiente (poucos pacientes para benefício real)
  • NNT alto → tratamento de baixa eficiência prática (muitos pacientes para 1 benefício)
  • Não existe NNT "bom" universal — depende do desfecho. Tratar antibiótico para meningite com NNT 5 é excelente; tratar com NNT 5 para um sintoma leve é pior, porque há 4 pessoas com efeito adverso para 1 com benefício.

Visualizando o NNT — quem realmente se beneficia

O NNT esconde uma verdade desconfortável: a maioria das pessoas tratadas não tem benefício real do tratamento. Algumas porque não teriam o desfecho de qualquer forma; outras porque têm o desfecho mesmo tratadas. Apenas uma fração — exatamente proporcional à RAR — é genuinamente poupada pelo tratamento.

Considere o caso da TARV (terapia antirretroviral) em prevenção de transmissão vertical do HIV. Sem tratamento, cerca de 25 em cada 100 mulheres com HIV transmitem o vírus durante a amamentação. Com TARV, esse número cai para cerca de 5 em 100. NNT = 1 / (0,25 − 0,05) = 5 — para cada 5 mulheres tratadas, 1 transmissão é evitada.

Mas o que acontece com as outras 4? A visualização abaixo decompõe.

Quem se beneficia, quem teria evitado mesmo sem tratamento, e quem tem o desfecho apesar de tratado.
100 mulheres com HIV amamentando
25 transmissões verticais sem tratamento
5 transmissões com tratamento
Não teria o desfecho de qualquer maneira
Poupado pelo tratamento (benefício real)
Tem o desfecho — com ou sem tratamento

NNT = 5. Para cada 5 pessoas tratadas com TARV, 1 deixa de ter transmissão. As outras 4 são tratadas sem que isso mude o desfecho — porque não teriam o evento de qualquer forma, ou porque tiveram apesar do tratamento.

Reflexões que esta visualização força:

  • Quantas pessoas em risco?
  • Quantas foram tratadas?
  • Quantas tiveram o desfecho?
  • Quantas tomaram tratamento sem necessidade real?

A leitura é direta. 75% das mulheres do grupo controle (sem tratamento) não transmitiram o vírus de qualquer forma — para elas, o tratamento seria irrelevante. 5% transmitem mesmo com tratamento — para elas, o tratamento falhou. Apenas as 20% restantes (a faixa verde) representam o benefício real do tratamento: pessoas que teriam transmitido sem TARV e foram poupadas com TARV.

Esta decomposição força perguntas que a leitura superficial do NNT esconde:

  • Quantas pessoas em risco genuíno?
  • Quantas foram tratadas?
  • Quantas tiveram o desfecho mesmo assim?
  • Quantas tomaram tratamento sem necessidade real?

Em decisões clínicas, a última pergunta importa especialmente para tratamentos com dano potencial (NNH baixo) ou custo alto. NNT 5 numa intervenção segura e barata como TARV é excelente; NNT 5 numa intervenção com efeitos adversos sérios merece reflexão sobre se aquelas 4 pessoas tratadas em vão são "custo aceitável".

NNH — Número necessário para causar dano

Definição: número de pacientes tratados para que um desenvolva um efeito adverso. Mesma fórmula do NNT, aplicada ao dano em vez do benefício.

NNH = 1 / AAR de dano

Onde AAR de dano = (incidência de dano no grupo intervenção) − (incidência de dano no grupo controle).

NNH é o outro lado da moeda do NNT. Toda decisão clínica baseada em evidências pesa NNT contra NNH:

  • NNT = 100 (benefício) e NNH = 200 (dano) → tratar 100 para 1 benefício, mas só 50 para 1 dano. Ruim.
  • NNT = 20 (benefício) e NNH = 200 (dano) → tratar 20 para 1 benefício, 200 para 1 dano. Bom.

A meta-análise sobre aspirina em prevenção primária no idoso, citada na página de Apply, tem NNT ≈ 265 (eventos cardiovasculares) e NNH ≈ 210 (sangramento maior) — perfil desfavorável, daí a recomendação atual de não iniciar aspirina nesse cenário.

Intervalo de confiança 95% (IC95%)

Toda medida de efeito calculada a partir de uma amostra é estimativa — o valor verdadeiro na população pode ser diferente. O IC95% é uma faixa que tem 95% de probabilidade de conter o valor verdadeiro1.

Como ler:

  • RR = 0,80, IC95% 0,70 a 0,90 → estimativa pontual sugere redução de 20%; o efeito verdadeiro está provavelmente entre redução de 30% e 10%. Resultado consistente, com efeito robusto.
  • RR = 0,80, IC95% 0,40 a 1,60 → estimativa pontual sugere redução de 20%, mas o efeito verdadeiro pode ir de redução de 60% até aumento de 60%. Resultado de baixa confiança, pode ser dano e ainda assim compatível com os dados.
  • IC95% que cruza o 1 (em RR ou OR) → não há diferença estatisticamente significativa entre os grupos a 95% de confiança.

Regra prática crucial: sempre olhe o IC95%, não só a estimativa pontual. ICs largos podem indicar amostra pequena ou efeito heterogêneo, e mudam a interpretação.

Aplicando ao caso da Dra. Amélia

De volta à pergunta sobre aspirina em prevenção primária no idoso (caso que percorre as páginas dos 5As):

A meta-análise de 2019 publicada no JAMA, sintetizando os ensaios ASPREE, ARRIVE e ASCEND, encontrou:

Eventos cardiovasculares maiores (benefício):

  • RA placebo ≈ 4% em 5 anos
  • RA aspirina ≈ 3,6% em 5 anos
  • RAR ≈ 0,4 pontos percentuais
  • RRR ≈ 10%
  • NNT ≈ 250 (com IC95% amplo, indo de 150 a infinito em algumas análises)

Sangramento maior (dano):

  • RA placebo ≈ 1%
  • RA aspirina ≈ 1,5%
  • AAR ≈ 0,5 pontos percentuais
  • NNH ≈ 200

Olhando RR: "redução de 10% em eventos cardiovasculares" — soa modesto mas favorável.
Olhando RAR e NNT: "0,4 pontos percentuais; preciso tratar 250 para evitar 1" — instantâneamente fica menos atraente.
Olhando NNH ao lado: "para cada 200 tratados, 1 sangramento sério" — o dano absoluto é maior que o benefício absoluto.

A mesma evidência, três interpretações. Sem RAR/NNT/NNH, fica tentador prescrever. Com elas, fica óbvio que o balanço é desfavorável.

Onde calcular

A calculadora de medidas de efeito deste site faz todos os cálculos automaticamente a partir de uma tabela 2×2. Insira os números do estudo e obtenha RA, RR, OR, RAR, RRR, NNT, NNH e IC95%.

Erros comuns

  • Reportar só RR (ou só RRR) sem RAR ou NNT. É erro tão comum em mídia que vale considerar deliberado em alguns casos. Sem o absoluto, a magnitude verdadeira fica oculta.
  • Confundir OR com RR quando o desfecho é comum. OR superestima o efeito quando RA > 10%.
  • Ignorar o IC95% e tratar a estimativa pontual como verdade.
  • Calcular NNT sem checar significância estatística. Se o IC95% do RR cruza 1, o NNT pode ser inválido.
  • Aplicar NNT de uma população em outra muito diferente. O NNT depende do risco-base — em populações com risco-base muito menor, o mesmo RR produz NNT muito maior.
  • Tratar desfecho substituto como se fosse desfecho clínico. NNT calculado em LDL não diz NNT em mortalidade.

Conceitos relacionados

Referências

  1. Altman DG, Bland JM. Confidence intervals for the number needed to treat. BMJ 1998;317(7168):1309–12.
  2. Greenhalgh T. How to Read a Paper: The Basics of Evidence-Based Medicine and Healthcare. 6ª ed. Hoboken: Wiley-Blackwell; 2019. Capítulo 5: Statistics for the non-statistician.
  3. Sackett DL, Deeks JJ, Altman DG. Down with odds ratios! Evid Based Med 1996;1:164–6. Disponível em: ebm.bmj.com/content/1/6/164.
  4. McMaster Health Forum. Communicating Effects of Interventions. Disponível em: mcmasterforum.org.