Ask (Perguntar) — o primeiro A
Tudo começa com uma dúvida no meio de um atendimento. Sem dúvida, não há MBE — apenas protocolo. Mas dúvida bruta também não basta: do jeito que aparece na cabeça, ela é vaga, ampla demais, sem ângulo claro de busca. O primeiro A — Ask, perguntar — é sobre transformar a inquietação em pergunta: específica, mensurável, possível de responder, relevante para este paciente e oportuna para o momento.
Quando isso é bem feito, todas as etapas seguintes ficam mais fáceis. Quando é mal feito, a busca traz lixo, a avaliação se perde, e a decisão volta a ser baseada em hábito ou autoridade.
Uma dúvida no consultório
Dra. Amélia atende, num centro de saúde, o Sr. António — 70 anos, hipertensão controlada com losartana, diabetes tipo 2 com hemoglobina glicada em 6,8%, sem evento cardiovascular prévio. Ele ouviu de um vizinho que "todo idoso devia tomar uma aspirina por dia para evitar infarto" e pergunta se pode começar.
A frase que surge na cabeça da Dra. Amélia é mais ou menos esta:
Será que devo prescrever aspirina para o Sr. António?
Isto ainda não é uma pergunta de MBE. É muito mais uma inquietação da Dra. Amélia do que uma pergunta científica passível de ser respondida — o desconforto íntimo do clínico diante da incerteza, o ponto onde ele percebe que não sabe e precisaria saber. É de onde tudo parte, sim, mas é só de onde parte. Falta especificidade, falta o que exatamente comparar, falta o desfecho que importa. O primeiro A é justamente sobre tirar a dúvida desse estado vago e levá-la para um formato que possa ser perseguido.
Antes de SMART e PICO: dúvidas de fundo e de primeiro plano
Nem toda dúvida clínica é igual. Existem dois tipos, e eles pedem buscas diferentes:
Background
Dúvidas de fundo
- Sobre o quê: O que é uma doença, como funciona, fisiopatologia, mecanismo de ação
- Exemplo: "Como age a metformina?"
- Exemplo: "O que causa pré-eclâmpsia?"
- Fonte ideal: Livro-texto, sumário clínico (UpToDate, BMJ Best Practice, DynaMed)
Foreground
Dúvidas de primeiro plano
- Sobre o quê: Qual a melhor decisão para um paciente específico
- Exemplo: "A metformina reduz mortalidade em diabéticos sem doença renal?"
- Exemplo: "Aspirina em baixa dose previne pré-eclâmpsia em gestantes de alto risco?"
- Fonte ideal: Pesquisa primária, revisão sistemática, diretriz baseada em evidência
A pergunta da Dra. Amélia é claramente de primeiro plano. Vamos afiá-la.
Seja SMART
O SMART não nasceu na medicina. Foi proposto em 1981 pelo consultor de gestão George T. Doran, num artigo da Management Review intitulado "There's a S.M.A.R.T. way to write management's goals and objectives"1. Era originalmente uma ferramenta para ajudar gestores a escreverem objetivos viáveis para suas equipes. Mas a lógica é universal — projetos, perguntas e propósitos têm chance muito maior de chegarem à conclusão se forem específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes e oportunos. Os que não passam no SMART raramente saem do papel.
A MBE adotou o acrônimo porque o problema da formulação de perguntas clínicas é o mesmo problema da formulação de objetivos. Uma pergunta vaga, imensurável, irrealista ou intempestiva produz, no máximo, frustração — independentemente de quão sofisticada seja a base de dados onde ela é levada.
SMART tem cinco critérios:
- S — Specific (Específica): claramente delimitada, sem termos vagos como "melhor" ou "mais seguro"
- M — Measurable (Mensurável): com desfechos objetivos e quantificáveis
- A — Achievable (Atingível, answerable): passível de resposta com base em estudos disponíveis
- R — Relevant (Relevante): útil para a decisão clínica em jogo
- T — Timely (Temporal): pertinente ao momento e com prazo factível para resposta
Voltando à inquietação da Dra. Amélia, vejamos onde ela passa e onde falha:
| Critério | A pergunta atende? | O que falta |
|---|---|---|
| Specific | Não. "Devo prescrever?" não delimita população nem comparador. | Definir perfil (idoso, sem doença cardiovascular prévia) |
| Measurable | Não. Que desfecho? Infarto? Morte? Sangramento? | Escolher desfechos clinicamente relevantes |
| Achievable | Sim, há literatura abundante sobre o tema. | — |
| Relevant | Sim, decide a conduta agora. | — |
| Timely | Sim, paciente está na frente. Prazo: hoje. | — |
A pergunta original falha nos dois primeiros critérios. Reformulando:
Em idosos sem doença cardiovascular estabelecida, a aspirina em baixa dose previne eventos cardiovasculares maiores em comparação com o não uso, sem aumentar significativamente o risco de sangramento maior?
Agora atende aos cinco. Hora de levar essa pergunta para a próxima estrutura.
Decompondo a pergunta com PICO
Se SMART avalia se a pergunta vale a pena ser perseguida, PICO decompõe a pergunta para a busca. Diferente do SMART, PICO nasceu dentro da própria MBE: foi formalizado em 1995 por Richardson, Wilson e colaboradores num editorial do ACP Journal Club2 que apresentava o conceito de "pergunta clínica bem formulada" como base para buscas eficazes em bases de dados biomédicas. Foi consolidado depois por trabalhos como o de Schardt e colaboradores3, que mostraram empiricamente como o framework melhora a precisão de buscas no PubMed.
Quatro letras, cada uma um componente lógico:
- P — Patient / Population / Problem (Paciente, População ou Problema)
- I — Intervention (Intervenção, exposição ou teste diagnóstico)
- C — Comparator (Comparador)
- O — Outcome (Desfecho)
Partindo da inquietação inicial da Dra. Amélia, passando pela pergunta SMART que afinamos juntos, agora podemos aplicar essa nossa dúvida à abordagem PICO:
| Letra | Componente |
|---|---|
| P | Idosos (≥ 65 anos) sem doença cardiovascular estabelecida |
| I | Aspirina em baixa dose (75–100 mg/dia) |
| C | Placebo ou ausência de tratamento |
| O | Eventos cardiovasculares maiores (infarto, AVC, morte cardiovascular) e sangramento maior |
Com esta tabela em mãos, a busca em base de dados deixa de ser um tatear no escuro. Os termos P, I, C e O viram palavras-chave (e descritores MeSH/DeCS) combinados com operadores booleanos. É exatamente o que veremos no próximo A.
Quando PICO não ajuda — e SMART continua valendo
Antes de seguir, uma ressalva importante. PICO foi desenhado com um propósito específico: estruturar perguntas sobre eficácia ou efetividade de intervenções em saúde. A presença obrigatória do C (comparador) não é acidente — é justamente o que faz o framework funcionar para perguntas do tipo "esta intervenção é melhor que aquela?".
Mas muitas dúvidas clínicas não são sobre intervenções terapêuticas. São sobre fisiologia, farmacologia, processo diagnóstico, semiologia, história natural da doença. Por exemplo:
- Por que a hiponatremia causa confusão mental?
- Como a furosemida age no túbulo distal?
- Que sinais semiológicos diferenciam derrame pleural transudativo de exsudativo?
- Qual a história natural do hipotireoidismo subclínico não tratado?
Para perguntas como essas, PICO não ajuda — o C não tem onde caber, e forçar um comparador seria distorcer a pergunta. Mas SMART continua valendo: cada uma delas pode (e deve) ser específica, mensurável (sim, mesmo perguntas conceituais admitem o critério "saberei que entendi quando..."), atingível, relevante e oportuna.
A regra prática: toda pergunta clínica passa por SMART. Só perguntas sobre intervenções passam também por PICO.
Por que SMART e PICO são complementares
São ferramentas com propósitos distintos.
SMART avalia a qualidade da pergunta como projeto de estudo dirigido. Funciona como filtro de viabilidade: vale a pena perseguir esta pergunta? Tem chance real de ser respondida no tempo disponível? Pense num exemplo cotidiano. No fim de semana você decide: "vou ler todo o capítulo do Harrison sobre lúpus eritematoso sistêmico". Soa como projeto de estudo, mas não é SMART — é vago (o que exatamente quero aprender?), não tem desfecho mensurável (como saberei se aprendi?), provavelmente não é atingível num fim de semana (são páginas e páginas), e a relevância depende: você atendeu algum paciente com lúpus essa semana, ou é estudo aleatório? Resultado típico: na segunda-feira, você não saberá o que fazer com um paciente que aparecer com a doença. O mesmo se aplica à pergunta clínica — sem os critérios SMART, ela vira tema, e tema não se responde, se discute.
PICO decompõe e organiza a estrutura da dúvida em quatro componentes lógicos. Funciona como uma ponte: como traduzo esta pergunta em termos que uma base de dados entende? Cada componente vira palavra-chave ou descritor, combinados com operadores booleanos durante a busca.
Usadas juntas — quando a pergunta é sobre uma intervenção —, levam o profissional do "o que será que devo fazer com este paciente?" para uma pergunta estruturada, pesquisável e clinicamente útil.
Erros comuns no primeiro A
- Pergunta vaga demais. "Qual o melhor tratamento para depressão?" não é pergunta — é tema de palestra. Falta população, comparador e desfecho.
- Desfecho substituto disfarçado de desfecho clínico. Perguntar pelo efeito de uma droga sobre LDL é diferente de perguntar pelo efeito sobre mortalidade cardiovascular. O primeiro é marcador, o segundo é o que importa para o paciente.
- Pergunta inviável de responder. Algumas inquietações envolvem juízo moral, valores ou preferências individuais e não cabem em PICO. Não é falha de método — é o tipo errado de pergunta para a MBE. Vão para a decisão compartilhada.
- Esquecer o comparador. Sem C, não há como avaliar efeito relativo. "A vitamina D ajuda?" precisa de "comparada a quê" — placebo, dose menor, nada?
- Pergunta tarde demais. Uma pergunta brilhante respondida três dias depois do paciente sair do consultório não muda a decisão. O T do SMART é o que mais falha na prática.
Próximo A: Acquire (Buscar)
Com a pergunta PICO pronta, a etapa seguinte é encontrar a melhor evidência disponível para respondê-la. As fontes são muitas, e a hierarquia entre elas importa: nem todo estudo tem o mesmo peso para responder à mesma pergunta.
Continue para Acquire (Buscar)Conceitos relacionados
- Dúvidas clínicas comuns — como a inquietação aparece no consultório
- SMART — os cinco critérios em detalhe, com mais exemplos
- PICO — os quatro componentes em profundidade
- Tomada de decisão compartilhada — para quando a pergunta envolve valores, não só evidência
Referências
- Doran GT. There's a S.M.A.R.T. way to write management's goals and objectives. Management Review 1981;70(11):35–6. ↩
- Richardson WS, Wilson MC, Nishikawa J, Hayward RS. The well-built clinical question: a key to evidence-based decisions. ACP J Club 1995;123(3):A12–3. ↩
- Schardt C, Adams MB, Owens T, Keitz S, Fontelo P. Utilization of the PICO framework to improve searching PubMed for clinical questions. BMC Med Inform Decis Mak 2007;7:16. Disponível em: doi.org/10.1186/1472-6947-7-16. ↩
- Straus SE, Glasziou P, Richardson WS, Haynes RB. Evidence-Based Medicine: How to Practice and Teach EBM. 5ª ed. Edinburgh: Elsevier; 2018. Capítulo 2: Asking answerable clinical questions.