Acquire (Buscar) — o segundo A
Com a pergunta PICO pronta, é hora de procurar resposta. Mas a busca por evidência clínica é diferente de uma busca no Google: existem hierarquias entre fontes, técnicas para refinar termos, filtros que mudam tudo. Sem isso, a procura traz lixo — e quem volta de mãos vazias termina decidindo por hábito.
O segundo A — Acquire, buscar — é sobre encontrar evidência de qualidade no menor tempo possível. Quanto mais alta na hierarquia a fonte, menos trabalho de avaliação crítica depois. Quanto mais bem construída a estratégia de busca, menos resultados irrelevantes para descartar.
Voltando ao consultório
Dra. Amélia tem agora, na frente do Sr. António, sua pergunta PICO formulada:
Em idosos sem doença cardiovascular estabelecida, a aspirina em baixa dose previne eventos cardiovasculares maiores em comparação com o não uso, sem aumentar significativamente o risco de sangramento maior?
Onde ela vai buscar a resposta? PubMed? Cochrane? UpToDate? O Google? A sequência de escolhas determina se ela sai do consultório com base em evidência consolidada — ou com mais incerteza do que entrou.
Duas hierarquias para entender
Buscar bem exige entender duas hierarquias distintas, que muita gente confunde.
A primeira hierarquia é entre desenhos de estudo. Um relato de caso, mesmo brilhantemente escrito, não tem o mesmo poder de informar uma decisão clínica que uma revisão sistemática bem feita. Essa diferença é capturada pela pirâmide de evidências.
A segunda hierarquia é entre fontes. Um capítulo do UpToDate, atualizado por especialistas, sintetiza para você o que pesquisadores levaram anos para construir. Um artigo isolado no PubMed traz dado bruto que você precisa avaliar. A regra prática: comece sempre pelo nível mais sintetizado disponível, descendo só quando necessário.
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Sumários clínicos baseados em evidências
Revisões frequentes, organizadas por especialistas
UpToDate · BMJ Best Practice · DynaMed
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Bases de revisões sistemáticas
Síntese crítica de múltiplos estudos
Cochrane Library · Epistemonikos
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Bases de estudos primários
Amplas, ricas, mas exigem filtros
PubMed · Embase · LILACS · SciELO
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Buscadores integrados clínico-focados
Atalho que retorna evidência de múltiplos níveis
TripDatabase · PubMed Clinical Queries
A ordem importa porque o esforço de avaliação crítica cresce na descida. Se um sumário do UpToDate já responde à pergunta com base em evidência sintetizada, a busca acabou. Se não responde, a Cochrane tem revisão sobre o tema? Se sim, ótimo. Se não, descer aos estudos primários — e aí a avaliação crítica precisa ser feita por inteiro pelo próprio profissional.
A estratégia 6S de Haynes
Brian Haynes propôs um modelo elegante que sintetiza essa lógica: a estratégia 6S1. Seis camadas de organização da evidência, do mais sintetizado (no topo) ao mais primário (na base):
- Systems (Sistemas) — softwares de apoio à decisão integrados ao registro eletrônico do paciente
- Summaries (Sumários) — capítulos atualizados em sumários clínicos
- Synopses of syntheses (Sinopses de sínteses) — resumos comentados de revisões sistemáticas
- Syntheses (Sínteses) — revisões sistemáticas em bases dedicadas
- Synopses of studies (Sinopses de estudos) — resumos comentados de estudos individuais
- Studies (Estudos primários) — artigos originais em bases biomédicas
A regra prática: sempre comece pelo S mais alto disponível. Cada nível acima sintetiza o trabalho do nível abaixo. Começar pelos estudos primários é o último recurso, não o primeiro.
Um detalhe que muda tudo: acesso
Toda essa hierarquia pressupõe que você consegue chegar às fontes. Na prática, isso é uma barreira real — UpToDate, BMJ Best Practice e muitos periódicos são pagos, e nem toda instituição em Moçambique ou Angola tem assinatura.
A boa notícia é que existe um conjunto significativo de fontes genuinamente gratuitas e o programa Research4Life, que dá acesso gratuito a profissionais em países elegíveis (Moçambique e Angola incluídos) — desde que a instituição esteja cadastrada. Como o cadastro e a navegação não são óbvios, dedicamos uma página inteira ao tema.
Como acessar fontes de evidênciaComo construir a busca
Encontrar a fonte certa é metade do caminho. A outra metade é saber falar a língua dela: operadores booleanos, descritores controlados (MeSH/DeCS), filtros metodológicos. São técnicas elementares que poupam horas e melhoram drasticamente a precisão da busca.
Como buscar — booleanos, descritores e filtrosErros comuns no segundo A
- Pular para o PubMed direto. Maioria das perguntas clínicas tem resposta em UpToDate ou Cochrane — economiza horas começar pelo sumário.
- Confiar em fonte primária sem checar se há síntese. Um único ensaio clínico positivo pode ser estatisticamente fraco, contradito por outros ou de baixa qualidade. Revisão sistemática combina e contextualiza.
- Ignorar literatura cinzenta relevante. Diretrizes da OMS, da USPSTF, do NICE, do Ministério da Saúde local não estão sempre em PubMed, mas são evidência sintetizada de alta qualidade.
- Desistir cedo. Se a primeira busca não traz nada, a estratégia geralmente está estreita demais. Ampliar com
OR, remover um filtro, trocar o termo por um sinônimo MeSH costuma destravar. - Não verificar a data. Especialmente em sumários, capítulos podem ter sido atualizados pela última vez há anos. Olhe a data antes de confiar.
Próximo A: Appraise (Avaliar)
Encontrar a evidência é metade do trabalho. A outra metade é avaliá-la criticamente: o estudo é metodologicamente sólido? O efeito encontrado é clinicamente relevante? Aplica-se ao paciente que está na minha frente? É o que veremos no próximo A — onde aparecem ferramentas como CASP, GRADE, RoB e medidas de efeito (RR, RAR, NNT).
Continue para Appraise (Avaliar)Conceitos relacionados
- Pirâmide de evidências — os seis níveis de desenho de estudo em detalhe
- Como buscar — booleanos, MeSH/DeCS, filtros, exemplo prático
- Acesso a fontes — Research4Life e fontes genuinamente gratuitas
- Desenhos de estudo — caso-controle, coorte, ECR, revisão sistemática
- Diretrizes e forças-tarefa — Cochrane, OMS, USPSTF, NICE como fontes sintetizadas
Referências
- DiCenso A, Bayley L, Haynes RB. Accessing pre-appraised evidence: fine-tuning the 5S model into a 6S model. Evid Based Nurs 2009;12(4):99–101. Disponível em: ebn.bmj.com/content/12/4/99. ↩
- Murad MH, Asi N, Alsawas M, Alahdab F. New evidence pyramid. BMJ Evid Based Med 2016;21(4):125–7. Disponível em: ebm.bmj.com/content/21/4/125.
- Straus SE, Glasziou P, Richardson WS, Haynes RB. Evidence-Based Medicine: How to Practice and Teach EBM. 5ª ed. Edinburgh: Elsevier; 2018. Capítulo 3: Acquiring the evidence.