CASP — Critical Appraisal Skills Programme
CASP — Critical Appraisal Skills Programme — é o nome de um conjunto de checklists curtos, cada um desenhado para um tipo específico de estudo. Cada checklist tem entre 10 e 12 perguntas, em linguagem acessível, organizadas em três blocos: o estudo é válido? quais são os resultados? os resultados ajudam-me localmente?
É a porta de entrada mais usada no mundo para avaliação crítica em formação médica e de enfermagem. Não substitui ferramentas mais técnicas como RoB 2.0 ou AMSTAR-2 — mas, para começar e para ensinar, é a melhor pedagogicamente.
Quando usar
CASP funciona com praticamente qualquer desenho de estudo. Existem checklists separados para:
- Ensaio clínico randomizado (RCT)
- Revisão sistemática
- Coorte
- Caso-controle
- Estudo de teste diagnóstico
- Estudo qualitativo
- Avaliação econômica
- Estudo de prognóstico
Use CASP quando precisar de uma avaliação estruturada mas pragmática — em sessão de revista, discussão de caso, ensino, ou avaliação inicial de qualquer artigo antes de aprofundar com ferramentas mais especializadas.
De onde veio
Foi desenvolvido nos anos 1990 pelo programa CASP UK, sediado em Oxford, como parte da expansão pedagógica da MBE1. Inspirou-se nas Users' Guides to the Medical Literature publicadas por Guyatt e colaboradores no JAMA na mesma época2.
A filosofia: bons estudos respondem a perguntas claras. Ferramentas de avaliação devem fazer o mesmo. Cada item dos checklists é uma pergunta direta com três respostas possíveis: sim, não posso dizer, não.
Como funciona — estrutura geral
Todos os checklists CASP seguem a mesma arquitetura, com três blocos:
Bloco A — Os resultados do estudo são válidos?
Aqui o avaliador examina o desenho e a execução: a pergunta da pesquisa estava clara? a metodologia foi adequada para responder à pergunta? o estudo foi bem conduzido? Tipicamente 4 a 6 perguntas, dependendo do desenho.
Bloco B — Quais são os resultados?
Aqui se examina o que o estudo encontrou: qual o tamanho e a precisão do efeito? os resultados são relatados de forma transparente? O tratamento numérico depende do desenho — para um ECR, são RR/RAR/NNT; para um teste diagnóstico, sensibilidade/especificidade/VPP/VPN; para uma revisão sistemática, o resumo da meta-análise.
Bloco C — Os resultados ajudam localmente?
Este bloco fecha o ciclo: os achados são aplicáveis ao paciente que tenho na frente? os benefícios superam danos e custos? o desfecho importa para este paciente? É a parte mais subjetiva — exige julgamento clínico, não cálculo.
Exemplo aplicado
Vamos aplicar o CASP-RCT a um exemplo concreto: o ensaio Study 31/A5349, publicado em 2021 no NEJM, que comparou regime de 4 meses de rifapentina + moxifloxacina vs. regime padrão de 6 meses para tratamento da tuberculose pulmonar sensível em adultos3.
Bloco A — validade
| Pergunta CASP | Resposta para Study 31 |
|---|---|
| O ensaio investigou uma pergunta claramente focada? | Sim — PICO bem delimitado: adultos com TB pulmonar sensível, regime 4M vs 6M, desfecho de cura sustentada |
| A alocação foi randomizada? | Sim — aleatorização central, com estratificação por país e por carga bacteriana inicial |
| Houve cegamento? | Não cegado para pacientes (regimes diferentes em duração); avaliadores de desfecho cegados |
| Grupos comparáveis na linha de base? | Sim — tabela 1 mostra balanço adequado |
| Acompanhamento completo? | 91% completaram o seguimento; perdas balanceadas entre grupos |
Bloco B — resultados
Cura sustentada aos 12 meses: 84,6% no regime 4M vs. 85,4% no regime 6M. Diferença −0,8 ponto percentual, IC 95% −3,8 a +2,1. Os autores definiram a margem de não inferioridade em 6,6 pontos — o limite superior do IC (2,1) está bem abaixo, então a não-inferioridade é demonstrada.
Bloco C — aplicação local
Os participantes foram recrutados em 13 países, incluindo do continente africano. A população é representativa de pacientes ambulatoriais com TB sensível. Em contextos onde rifapentina está disponível, o regime curto pode reduzir tempo de tratamento, melhorar adesão e reduzir custos. Em contextos onde rifapentina ainda não está disponível — situação comum em Moçambique e Angola até 2026 —, a aplicação direta exige primeiro garantir o acesso ao medicamento.
Este exemplo ilustra exatamente como o Bloco C dialoga com a realidade local. Validade e resultados são universais; aplicabilidade não.
Limitações conhecidas
CASP tem três limitações que você deve conhecer:
- Não produz pontuação somatória — o que é virtude pedagógica mas pode ser frustrante para quem quer "uma nota" do estudo. A escolha foi deliberada: somar respostas a perguntas de pesos diferentes produz números enganosos.
- É menos rigoroso tecnicamente que RoB 2.0 para ECRs ou AMSTAR-2 para revisões. Para revisões sistemáticas formais (Cochrane, etc.), as ferramentas dedicadas são mais apropriadas. CASP é o ponto de entrada, não o ponto final.
- O domínio "não posso dizer" é frequentemente usado em excesso — quando o avaliador, na dúvida, marca essa opção como saída neutra. Use-o apenas quando a informação realmente está ausente do artigo, não quando você tem dúvida técnica.
Onde encontrar
Os checklists CASP estão disponíveis gratuitamente em PDF, com tradução em português:
- Site oficial: casp-uk.net/casp-tools-checklists
- Versões em português: procure pela aba "Translations" ou "International"
- Tutoriais e workshops: o site oferece também materiais de treinamento gratuitos
Os checklists podem ser livremente impressos, distribuídos e usados em ensino, com atribuição.
Conceitos relacionados
- Appraise (Avaliar) — onde CASP se encaixa no ciclo dos 5As
- Outras ferramentas de avaliação crítica — visão geral comparativa
- RoB 2.0 — alternativa mais técnica para ECRs
- Vieses e fontes de erro — fundamentação dos itens dos checklists
- Desenhos de estudo — para escolher o checklist CASP correto
Referências
- Critical Appraisal Skills Programme. CASP Checklists. Oxford: CASP UK. Disponível em: casp-uk.net/casp-tools-checklists. ↩
- Guyatt G, Rennie D, Meade MO, Cook DJ. Users' Guides to the Medical Literature: A Manual for Evidence-Based Clinical Practice. 3ª ed. New York: McGraw-Hill; 2014. ↩
- Dorman SE, Nahid P, Kurbatova EV, et al. Four-Month Rifapentine Regimens with or without Moxifloxacin for Tuberculosis. N Engl J Med 2021;384(18):1705–1718. Disponível em: nejm.org. ↩